14.6.09
05
- Não quero mais...
- Faz tempo que sei disso.
- E o que quer aqui?
- Nada.
- Nada?
- Nada. Estou apenas contemplando tua vida à distância.
- Não faz sentido.
- E o que faz?
8.6.09
Breve pseudo-manifesto a meu favor
Declaro que, deste instante em diante e para todo os fins, não terei mais nome, nem endereço, nem alma, nem corpo. Não por suicídio ou coisa do gênero, mas basicamente por assim ser. Não assinarei mais nada, pois nada mais será meu. Não farei mais nada, pois nada mais terei para fazer. Será como o clímax do ápice dos meus sonhos nada infantis, como a volta às entranhas do escroto do meu pai ou do ovário da minha mãe ou ambos, o que faria mais sentido.
Entedem, pessoas, que a vontade de existir evaporou? O peso das responsabilidades não me agrada, nem muito menos a vida escrava de estudante assalariada. Por mais que pareça incoerente.
Simplesmente declaro o fim.
20.5.09
Estive pensando sobre a real utilidade do amor. Agora, vazia de qualquer sentimento, fico tentando entender o porquê de meus fracassos, ou melhor, o porquê de ser, quase sempre, a que acaba chorando no final. Sei que sofro de um mal: o de achar que as pessoas não são simplesmente descartáveis. Reluto, até as últimas forças, em abrir mão de alguém. Não me refiro ao que sinto, isso só se esvai com o tempo, mas ao outro, à companhia do outro, à amizade do outro. Talvez um dia me convençam do contrário, mas, hoje, para mim, ninguém substitui ninguém. Concordo que novas histórias acontecem, novas pessoas aparecem. Mas aquele lugar, o daquilo que passou, vai continuar onde esteve, desde o começo, mesmo que se tenha trancado o espaço e jogado a chave no mar. Sendo assim, quanto mais casos não dão certo, mais vazios coleciono por dentro e continuo me perguntando, a troco de quê? De gastos desnecessários de dinheiro, de tempo, de esforço? De noites em claro, dores de cabeça e auto-estima no pé?
Por essas e outras, eu desisto. Desisto de querer nutrir qualquer tipo de sentimento por qualquer pessoa. Desisto de tentar acreditar em algo que não merece crença. Desisto.
Amar é inútil.
16.5.09
Hanna
- Bate em mim?
Eu tinha pena dela, assim, com as pernas abertas, a boceta encharcada, pedindo por mais. Um dia já me deu um tesão absurdo. Mas ela conhece bem demais a minha boca de mulher e meus gostos um tanto quanto violentos, já não há mais medo ou tensão naquele olhar. Ainda a beijo, chupo e me lambuzo por, digamos, falta do que fazer.
- Não, preciso ir agora.
Saí fingindo não escutar as reclamações. Mulher é foda por causa disso, precisa ser fresca ou não respeita o que tem entre as pernas. Eu devo ser meia mulher ou uma mulher pela metade. Não, não é a mesma coisa, acredite. Alguns dizem que apenas não encontrei ninguém que me pusesse rédeas curtas, mas eu digo que esse alguém é covarde demais pra tentar pôr algo em mim. Se bem que... adoraria ter certas coisas aqui dentro agora. Preciso encontrar uma presa interessante, dessas que se escondem, que tremem, mas que se entregam. As menos permissivas e mais rebeldes são as melhores. Adoro a maldade. Ela é o que ainda me mantém viva. Tantos problemas, tantas dores. Vê-los nos outros é, no mínimo, excitante.
- Tens fogo?
- Se não tiver, fabrico. - Respondi sorrindo ao homem de olhar obceno.
- E nome, tens? - Perguntou, agradecendo pelo isquero com um aceno de cabeça.
- Escolha um e será o meu.
Eu tinha pena dela, assim, com as pernas abertas, a boceta encharcada, pedindo por mais. Um dia já me deu um tesão absurdo. Mas ela conhece bem demais a minha boca de mulher e meus gostos um tanto quanto violentos, já não há mais medo ou tensão naquele olhar. Ainda a beijo, chupo e me lambuzo por, digamos, falta do que fazer.
- Não, preciso ir agora.
Saí fingindo não escutar as reclamações. Mulher é foda por causa disso, precisa ser fresca ou não respeita o que tem entre as pernas. Eu devo ser meia mulher ou uma mulher pela metade. Não, não é a mesma coisa, acredite. Alguns dizem que apenas não encontrei ninguém que me pusesse rédeas curtas, mas eu digo que esse alguém é covarde demais pra tentar pôr algo em mim. Se bem que... adoraria ter certas coisas aqui dentro agora. Preciso encontrar uma presa interessante, dessas que se escondem, que tremem, mas que se entregam. As menos permissivas e mais rebeldes são as melhores. Adoro a maldade. Ela é o que ainda me mantém viva. Tantos problemas, tantas dores. Vê-los nos outros é, no mínimo, excitante.
- Tens fogo?
- Se não tiver, fabrico. - Respondi sorrindo ao homem de olhar obceno.
- E nome, tens? - Perguntou, agradecendo pelo isquero com um aceno de cabeça.
- Escolha um e será o meu.
***
Obs: Texto retirado do meu falecido blog em parceria, o Sobre Mortes. Vou começar a postá-los aqui para poder dar uma continuidade à história dessa personagem.
Obs: Texto retirado do meu falecido blog em parceria, o Sobre Mortes. Vou começar a postá-los aqui para poder dar uma continuidade à história dessa personagem.
12.5.09
Entrevistando Eduardo de Souza
Para quem já conhece a urgência das palavras de Edgar Sollers e para quem vai descobrir, agora, a beleza de todas elas, tenho o prazer de trazer ao D&L, em mais uma entrevista, o homem por trás do pseudônimo: Eduardo de Souza (34). Intenso, vivo e apaixonante, escreve no Do amor laico impropério. É uma espécie rara e encantadora, um amigo, acima de tudo, e um orgulho. Sempre. Declaro minha admiração e meu carinho imensuráveis e deixo minha marca até onde alcanço, com esse talento exposto aos olhos de quem passar por aqui.B. - Diga, quem é o Eduardo?
E. - Sou incapaz de responder esta pergunta, Babs. No momento não estou em busca de definições a meu respeito. Só posso afirmar que meu signo é gêmeos. Logo, sou Castor e Pólux. Castor diz que sou apenas um homem, como todos os homens, e pede para que me esqueçam. Pólux diz que sou imortal e que não posso me incluir em plurais. E pede para que, aconteça o que acontecer, jamais me confundam.
B. - O que você busca na vida?
E. - Boa pergunta, coincidentemente estava pensando nisso hoje de manhã. As pessoas são movidas por dois motivos: o objetivo, ou a razão. Eu sou movido por razões e não por objetivos. Não pretendo chegar a lugar nenhum além do próximo passo, que foi programado pelo passo anterior. O que isso me trouxer, é bem vindo.
B. - E qual foi seu passo anterior?
E. - Posso dar um exemplo profissional, hoje eu trabalho com publicidade por que antes eu trabalhava num bureau e fui trabalhar num bureau por que antes eu era operador de copiadora numa empresa de engenharia e antes eu era office boy nessa mesma empresa. Uma coisa me levou ao melhor do que eu podia alcançar dentro de cada universo. The sea refuses no river.
B. - A quantas anda o seu pensamento nesse exato momento?
E. - Estou num momento darwiniano, lutando pela sobrevivência.
B. - O que é necessário para a sua sobrevivência?
E. - Respeito, que só se adquire sobrevivendo. Lembrei de uma passagem do Rocky, ele fala sobre isso. Sobre o quanto você pode aguentar até que a vida lhe dobre os joelhos e que o respeito só se adquire quando se consegue levantar de novo.
B. - Me indica um filme bom?
E. - The Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) é maravilhoso. É um filme que eu teria escrito. American Beauty (Beleza Americana) ou Encaixotando Helena, também. Tem os que eu teria filmado, ou musicado, como Amélie... a fotografia e a trilha sonora são maravilhosas.
B. - Você citou alguns dos meus filmes preferidos (risos). E um livro, me indica também?
E. - A Insustentável Leveza do Ser. Se eu me esforçar tanto para vender um livro meu quanto eu me esforço pela Insustentável, serei um best seller. É o livro que leio de quando em quando para me localizar no mundo.
B. - Eu li por sua causa e me arrependi de ter demorado tanto. É maravilhoso. Falando em literatura, quando e como foi seu primeiro contato com a escrita?
E. - Sou um tanto exigente, leio bastante mas são poucos os autores que me agradam... Milan Kundera é um deles. Meu primeiro contato consciente foi com uns 5 anos, era um livro infantil chamado "O Menino que Queria Ser Estrela". Contava a história de um menino que tinha um cachorrinho e, claro, queria virar estrela. No final ele consegue, mas o cãozinho perde seu dono, seu amigo, seu companheiro. Lembro de chorar no final do livro.
B. - É difícil algo lhe tocar ao ponto de provocar o choro?
E. - De maneira geral, é difícil. Mas eu choro toda vez que assisto o Rocky. E toda vez que leio a Insustentável por razões diferentes.
B. - O que é arte pra você?
E. - A arte é o que me resta de sagrado. Para mim a arte é a expressão daquilo que nos torna diferente e absolutamente iguais. Mayakoviski pagou com a vida a dor da existência. O desespero de Cobain não era teatro, era verdade. Van Gogh fez o mesmo, e outros tantos. Nos forneceram força e fraqueza, nos ofereceram todas as grandezas e baixezas do ser humano. Isso é arte. Arte não tem a ver com controle, tem a ver com descontrole. A técnica gera o controle. Controle é trabalho acadêmico. Controle não é arte, é entretenimento. Entretenimento é passatempo, é show bussiness. Não é o que me instiga. Para mim, Elvis foi um falsário enquanto artista. Era um cara manipulável, inseguro, não escolhia nem as músicas que cantava, ele nunca compôs nada. Na minha visão, Elvis era uma mentira. Assim como Vinícius era uma mentira. Esses não fizeram arte, fizeram entretenimento de excelente qualidade. Não consigo acreditar em Vinícius de Moraes. Ele era de família influente, diplomata, filho de diplomata, que trepava com as empregadas da família, e se tornou um exímio sedutor. Foi um desses que veio para a vida a passeio, é incontestável sua habilidade com as letras, mas não consigo acreditar que ele tivesse derramando de verdade uma lágrima sequer por uma mulher, quem quer que seja. Ele brincava com os plurais em seus poemas, os elogios se repetem, usava as mesmas palavras para encantar mulheres diferentes. Usava fórmulas que as mulheres adoram acreditar e amou mil. Quem ama mil não ama ninguém além do próprio umbigo.
B. - Quando surgiu a necessidade de se expressar através das palavras?
E. - Não houve um momento especial, eu faço isso desde sempre. Quando era criança, desenhava histórias em quadrinhos com meu irmão. Escrever é uma maneira pela qual me expresso. E expressão é arte. Não estou entrando no mérito se é bom ou ruim, acredito que arte vem da necessidade de expressão, da necessidade de transcendência. Escrever é produzir uma fagulha e jogar na imensidão. Eu não escrevo por que gosto ou por que quero ser escritor, escrevo por que preciso. Claro, penso em publicar um dia, aí sim, por vaidade. Não tenho preocupações ou ilusões mercadológicas. Eu assisto filmes que ninguém assiste, ouço músicas que ninguém ouve. É natural que escreva um livro que ninguém vai ler.
B. - Duvido que ninguém leia. Mas e o blog, por que resolveu criá-lo?
E. - Por que você me pediu para fazê-lo (risos).
B. - Sério?
E. - Sim, a culpa é sua. Eu sempre escrevi mas era relapso com as minhas coisas. A idéia do blog foi ótima, caso contrário teria perdido a maioria daqueles textos.
B. - É a culpa mais gostosa de se carregar, tenho que dizer (risos). Você acha que escreve bem?
E. - Eu escrevo melhor que o Paulo Coelho, que está na Acadêmia Brasileira de Letras, e muito melhor que a Zíbia Gaspareto e que a Bruna Surfistinha. Eles são nossa referência de best sellers, logo, escrevo bem. Falando sério, há uma moral católica que nos impede de dizermos que somos bons naquilo que fazemos, por que pode soar arrogante ou presunçoso e tudo mais, como se fosse errado ser bom naquilo que você faz. Uma das coisas que me estimulam a escrever é que não encontro textos como eu gostaria de ler. Mas como eu devo ter dito isso é questão de gosto, para o meu gosto eu escrevo bem. Eu, o Milan Kundera, o Frank Miller, Oscar Wilde, Garcia Marques e mais uns dois ou três... (risos).
B. - (Risos). Inteligência é algo fundamental para você?
E. - Não. Fundamental é ser rico e bonito. Quem não tem isso se vira como pode.
B. - Então é isso que lhe atrai nas pessoas: riqueza e beleza?
E. - Não, não, nunca disse que isso me atrai. Você me perguntou se a inteligência é fundamental para mim, não especifícou em que sentido. Acho que beleza e riqueza são fundamentais para a satisfação dos desejos. Me refiro à beleza no sentido plástico e fútil.
B. - Você é feliz?
E. - Sou esquisito.
B. - Esquisito?
E. -Sim, tem certas coisas, como conquistas materiais, posição social, que são motivo de felicidade para pessoas, mas para mim tanto faz. Ter um carro ou uma casa, tanto faz, eu viveria de vento. De brisa e de arte.
B. - Você consegue definir o amor?
E. - O amor é um móbile, diria Moska. Para o homem, o amor é uma derrota constante, diria eu mesmo.
B. - Por que uma derrota?
E. - Porque amar é um ato feminino. O homem é criado para prover, para caçar, para guerrear. Nunca para amar. O homem sabe seduzir, sabe ser gentil, sabe ser educado, sabe conquistar, mas amar está aquém do seu conhecimento. Quando ele ama, se torna irracional. A mulher tem que ter astúcia, por que ela é educada para amar. É ela quem manipula o relacionamento. É ela quem escolhe, sempre. O homem pode se apresentar, pode bancar o palhaço, pode ser o cara mais rico ou mais lindo do mundo, mas quem sabe o que fazer com o relacionamento é a mulher. Se vai ser uma noite ou se vai ser uma vida, é a mulher quem decide. Elas fazem testes, jogos, mesmo com aqueles que ama. O poder está nas mãos das mulheres, ou no meio de suas coxas, se preferir. Pode ser Deus com o falo pintado de ouro, se ela não quiser, não vai ser. O amor para a mulher é um capricho. Para o homem, rendição. A mulher tem o poder de colocar um homem no céu ou mandá-lo para o inferno. Engraçado pensar que Nietzsche amava Lou Salomé, o homem que revolucionou a história do pensamento ocidental foi incapaz de fazer com que ela o amasse da mesma maneira. Nietzsche que era tão poderoso com sua filosofia do martelo, era tímido e inseguro em relação às mulheres. Mesmo sendo um dos maiores pensadores do século XIX, para Lou Salomé, provavelmente Nietzsche era um bosta. Vai ver por isso ele ficou louco.
B. - Acho que discordo um pouco de você. Talvez um tanto. Mas isso não vem ao caso (risos). Eu percebo uma intensidade à flor da pele nos seus textos. Ela é inerente a você, aos seus desejos ou a ambos?
E. - Penso que se é para sangrar, que seja até a ultima gota. Para escrever sobre a fome, é preciso ter fome.
B. - Não tem medo das conseqüências?
E. - Não me importo em estar sangrando, meu medo é ferir alguém.
B. - Você chega a gostar de estar assim?
E. - Não se trata de gostar ou não gostar. Se trata de ser.
B. - Entendo você, entendo bem. É isso, querido, acho que concluimos. Espero que você tenha gostado.
B. - Não tem medo das conseqüências?
E. - Não me importo em estar sangrando, meu medo é ferir alguém.
B. - Você chega a gostar de estar assim?
E. - Não se trata de gostar ou não gostar. Se trata de ser.
B. - Entendo você, entendo bem. É isso, querido, acho que concluimos. Espero que você tenha gostado.
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Visitem: http://esollers.blogspot.com/
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Outras entrevistas: Vitor Tamar
Gabriela Cruz
Alessando Sachetti
Lúcia Ramos
Sebastião Moura
Jô Oliveira
4.5.09
Ysatsce
Parte VIII:
Ela sai do banheiro. Veste um roupão felpudo e tem os cabelos molhados escorrendo sobre os ombros. Anda até a sala, liga o som e senta confortavelmente no sofá. Abre as pernas, os pés apoiados na mesa de centro, começa a acariciar as coxas. A cabeça recostada, os lábios entreabertos, ela sente, de repente, alguém vendando seus olhos.
- Quem está aí? Quem?
- Calada!
- És tu? Diz que sim!
- Já disse, cale a boca!
O outro a empurra contra a parede, arrancando o roupão e, segurando as duas mãos atrás das costas dela, começa a cheirar cada entrada de seu corpo.
- Puta que o pariu!
- Pára! Pára!
Ela debate-se inutilmente. Os braços a apertavam forte demais. O desespero mistura-se a um prazer estranho.
- Diz apenas quem tu és. Sei que não és ele!
- Eu sou isso aqui.
O outro abre o zíper da calça, segura para fora o pau muito duro e estupra todos os orifícios de que ela dispõe. Força as investidas, machucando o corpo dela, arranhando, abusando, deixando marcas e fazendo-a gritar.
O outro termina e a deixa jogada no chão, sem reagir, sem mais forças.
Ela fica deitada, sozinha, fixando os olhos no nada, sem conseguir definir o que havia sentido ou acontecido.
Ele passa as mãos pelos cabelos dela, tirando-a do torpor.
- Foste tu?
- Não. Mas fui eu quem quis.
- Por que não me avisaste?
- Não preciso te dar satisfações.
Ele sorri e, segurando sua cabeça, ele a guia até o meio das pernas.
- Vem terminar o serviço, menina.
Ela o chupa obedientemente.
***
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17.1.09
Meus 22 anos...
Sei que não sou mais o que fui ontem. Tenho em mim um vazio imensurável, uma tristeza oca, um peso que me prende ao chão e não me deixa seguir em frente. A única opção que me resta é sentar e abraçar meu próprio corpo, fechar-me em uma redoma de pele e pêlos. Deixar que o tempo passe, o mundo gire e as coisas aconteçam, acostumando-me novamente à solidão. Um estar só que vai além da falta de presença alheia, é a ausência de tudo. Os sentimentos, que um dia fizeram de mim quem fui, extinguem-se diante dos meus olhos. Espero por mais três anos de clausura, autoconhecimento e auto-suficiência. Espero por mais amores passageiros, sem nenhum significado, que de nada merecem tal denominação. Espero por quantos mais anos forem necessários até que consiga aprender a lidar com a força do que guardo em mim. Choro ao escrever essas poucas e mal traçadas linhas. Choro e de repente descubro que o que hoje está oco, ainda reclama a ausência daquilo que o preenchia.
9.1.09
Devassa
Ato III

Sei que vivo em uma fogueira. Uma dessas que não tem fim. Cada dia que passa me convenço mais e mais, mas hoje, especialmente hoje, me sinto o próprio fogo. O crepitar na madeira se confunde com os meus gemidos, que me acompanham durante todas as vinte e quatro horas. Vou me insinuando como uma labareda, aumentando, aparecendo, provocando. Ando nua pela casa quando acordo, fico assim, rebolando, descendo a mão à virilha, me tocando, entre um gole de suco e uma mordida na torrada, entre o intervalo do programa e o chamado do telefone, entre um olhar de um vizinho e de outro. Adoro me exibir. Lembro da última trepada, na noite anterior. A expressão de surpresa quando me viu chegar e abrir o casaco, mostrando que era só isso que vestia, deixando claro o motivo da minha visita. A boca ávida me engolindo quase por inteiro, a língua insolente me paralisando de prazer. Ali, bem ali, no corredor de entrada, encostados na porta do elevador, como dois animais no cio. Nem mais racionais, nem menos instintivos, éramos exatamente iguais. Pensamentos como esses só atiçam os meus desejos: um único gozo nunca foi suficiente, nem nunca será. Sinto as faíscas saltarem de mim, no ponto mais alto do ardor. Pego o celular e digito um número conhecido. Deixo que ouçam o som do meu corpo, junto a gemidos e falas sem nexo: bato de leve com o indicador no mamilo, nos dois, dou tapas sonoros na bunda e continuo uma masturbação louca, desesperada, com um barulho molhado cada vez mais audível. Quando coloco de novo o aparelho perto do ouvido, escuto uma respiração abafada, cansada, uma voz masculina inconfundível que pergunta:
- É você?
Quando apenas respondo:
- Quem sabe esta madrugada, eu não bata na sua porta mais uma vez?
E desligo.
***
27.11.08
24.10.08
Fragmento
...ao fim de cada noite, com as últimas forças que lhe restam, ela tira a roupa do corpo, a colcha da cama e deita. Deixa sair as lágrimas guardadas de um dia inteiro. Vinte e quatro horas de fingimento, de sorrisos vazios, acenos de cabeça, conversas sem cor e olhares que fitam, mas não enxergam por que teimam em sonhar. Ainda. Teimam em querer ver o que não está mais à vista e nem quer estar. Pensa em como foi difícil suportar o peso das lembranças que não a deixam nem por um minuto sequer, não dão trégua e fortalecem ao mínimo sinal: um cheiro, uma voz, um nome gritado por qualquer razão que seja, por uma boca desconhecida, mas um nome familiar. Cheio de sentimento. Cheio de tristeza...
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